Elaine Cristina
Presença

Desaprendemos a parar?

Mulher sentada junto à janela, sem celular, olhando para fora

Quando foi a última vez que você ficou alguns minutos sem fazer absolutamente nada? Sem celular, televisão, música, mensagem ou qualquer outra distração.

Eu faço essa pergunta com frequência nos atendimentos, e a resposta mais comum é um silêncio meio sem graça. A pessoa procura na memória e não acha. Não porque não tenha tido tempo livre, mas porque todo tempo livre foi preenchido com alguma coisa.

A gente para, mas não fica parada

Para, pega o celular. Senta, liga a televisão. Tem cinco minutos, procura algo para ver. Não é falta de descanso — é descanso ocupado. E ficar alguns minutos na própria companhia, sem nada acontecendo, virou desconfortável para muita gente.

Para se ter ideia do espaço que isso ocupa: o relatório Digital 2026 aponta que o Brasil tinha cerca de 185 milhões de usuários de internet no fim de 2025, quase 87% da população, e por volta de 150 milhões de identidades em redes sociais. Isso não quer dizer, por si só, que o uso seja problemático. Mas ajuda a entender por que o silêncio ficou raro.

O que isso tem a ver com o corpo

Aqui está a parte que me interessa profissionalmente: quanto mais ocupada está a atenção, mais difícil fica notar os sinais do próprio corpo.

Muita gente só percebe que está sobrecarregada quando a dor já está forte, quando o sono já não repara, quando o cansaço já atrapalha a vida. Antes disso, o corpo provavelmente deu sinais menores — o ombro que subiu, a mandíbula que travou, a respiração que encurtou. Eles passaram despercebidos porque a atenção estava em outro lugar o tempo inteiro.

Perceber exige um mínimo de espaço vazio. Se não sobra nenhum, o corpo só consegue se comunicar gritando.

Eu demorei a ver isso em mim

Antes de trabalhar com terapias corporais, passei anos na área administrativa. Ia dormir pensando nos problemas do dia seguinte e acordava cansada. Meu corpo doía, mas minha cabeça continuava funcionando como se eu precisasse resolver alguma coisa o tempo todo.

Eu estudava práticas integrativas desde 2016, mas demorei a fazer a transição. Só quando fui diagnosticada com estresse grave é que comecei a olhar para o que meu próprio corpo vinha mostrando há tempos. E o que eu mais tinha perdido não era tempo de descanso — era a capacidade de estar presente no próprio descanso.

O que a pesquisa mostra, e o que ela não mostra

Existem estudos relacionando atenção consciente e uso de tecnologia. Uma meta-análise de 2025, reunindo 140 estudos e mais de 79 mil participantes, encontrou associação moderada entre maior nível de atenção plena e menor uso problemático da internet. Outra, com 29 pesquisas e mais de 17 mil pessoas, encontrou associação semelhante com o uso de celular.

Vale dizer com clareza o que isso significa: associação não é causa. Os estudos não provam que prestar atenção resolve o uso excessivo, nem o contrário. Mostram que as duas coisas costumam aparecer juntas. É um indício, não uma receita.

Cinco minutos

Não proponho nada grandioso. Experimente ficar cinco minutos sem fazer nada:

Respirar com calma. Observar os ombros, a mandíbula, as costas. Perceber onde existe tensão, sem tentar corrigir. Caminhar sem olhar para o telefone. Ou simplesmente deitar no sofá sem ligar a televisão.

Parece pouco. Mas para algumas pessoas, ficar em silêncio consigo mesma já é um exercício difícil — e essa dificuldade, por si só, já diz alguma coisa.

Não é sobre demonizar a tecnologia

Não precisamos fugir do celular, do trabalho ou das obrigações. Precisamos reaprender a existir também quando nada está nos distraindo.

Às vezes o caminho de volta para si começa com cinco minutos de silêncio e uma pergunta simples: como eu estou agora?

Quer começar por conta própria?

Reuni as práticas de respiração e percepção corporal numa página aberta, sem custo.

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